Alcateia contra a democracia
- Sara Goes
- 19 de nov. de 2024
- 2 min de leitura

A pressa com que lideranças bolsonaristas se movimentaram para desmentir a conexão óbvia e pública entre Francisco Wanderley Luiz, o terrorista do recente atentado em Brasília, e o bolsonarismo é, no mínimo, digna de nota. Mal surgiram as primeiras notícias, e lá estavam figuras do movimento apressadas, tratando de esclarecer que aquele “ato isolado” em nada representa a essência de suas pautas. Reduzir episódios como esse a ações de um lobo solitário é ignorar um fator crucial: ninguém se radicaliza sozinho. Lobo solitário não sobrevive em alcateia, e no Brasil essa alcateia tem um nome e um líder simbólico: Jair Bolsonaro.
A prisão de integrantes de um grupo de militares de Operações Especiais, conhecidos como kids pretos a partir da operação da Polícia Federal chamada Contragolpe, evidenciou como a radicalização política no Brasil transformou discursos de ódio em ameaças concretas à democracia. O grupo, desmantelado pela Polícia Federal, planejava atentados contra figuras de destaque, incluindo o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, em um esforço claro para desestabilizar as instituições democráticas. A apreensão de documentos, mensagens e esquemas traçados pelos suspeitos confirmou que os planos iam além de retórica, envolvendo ações práticas que colocariam em risco a estabilidade nacional. Esses atos, chamados pelos próprios golpistas de "Punhal Verde e Amarelo", não podem cair na armadilha anedótica pelo aspecto ridículo e ser dissociados de um ecossistema político que incentivou a violência como ferramenta de ação.
Os kids pretos são militares especializados em operações táticas e articuladores de estratégias de guerra híbrida, que combinam táticas militares e civis, como desinformação, sabotagem e ações psicológicas. Essa atuação não é uma teoria conspiratória ou uma atividade secreta: os próprios integrantes do grupo se gabam de suas ações em podcasts e eventos de entusiastas do militarismo, cuja romantização precisa ser examinada à luz de suas consequências no fortalecimento de ideologias autoritárias.
O desmantelamento da alcateia bolsonarista ainda está longe de ser concluído. Há lobos cujas prisões são essenciais para desarticular completamente esse sistema, que opera com uma hierarquia bem definida. Na natureza as alcateias são organizadas de forma hierárquica, com líderes conhecidos como macho e fêmea alfa. Outros membros incluem subalternos e, às vezes, lobos subordinados ou juvenis. Os chamados lobos ajudantes de ordem. Ok, essa última parte é mentira. A verdade é que esses animais se comunicam por meio de uivos, expressões corporais e até marcação de território com urina e fezes. Percebesse a semelhança?
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