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Carnuda com cara de safada no fundo de poço


A cantada veio de um pirralho. Geração Z. Uns 20 anos, no máximo. Do tipo que usa gírias que eu não entendo e me olharia como se eu fosse uma entidade mística só por saber quem é Kátia Cilene. Eu estava em um bar na Aldeota, 50+, só passando, indo ao banheiro com minha melhor expressão gótica: cara fechada, andar firme, toda vestida de preto entre camisas do Fortaleza e do Ceará.

E ele me olha — me olha mesmo, no fundo dos olhos — e solta:

Eu gosto é assim: carnuda com cara de safada.

Segui andando, mas a frase não saiu da minha cabeça. Ficou. Como um triplex construído ali, entre a nuca e o estômago.

“Carnuda.” Ele disse carnuda com gosto. E eu pensei: é isso. Eu sou gorda. Oficialmente. Preciso me readaptar a essa realidade. Só que ainda não consigo curtir. Ainda não consigo habitar esse corpo com leveza. Ainda me escondo. Me maquio de sarcasmo e piadas autodepreciativas. Inatingível. Mas por dentro, tô mais pra balde furado do que pra entidade gótica.

Agora corta pra uns dias antes da cantada. Depois de anos pulando entre relacionamentos que me sugaram a saúde, o dinheiro e a autoestima, eu resolvi voltar pra pista. Fiz app de relacionamento. Fui.

E reencontrei um amigo de anos atrás. Um cara que só me via pela internet, que tinha na cabeça a versão pública da minha pessoa: firme, intensa, gótica, inteligente. A mulher que caminha com propósito pro banheiro, com trilha sonora própria. Um conceito.

Mas aí ele entrou no meu mundo. Literalmente. Veio no meu apartamento e encontrou uma realidade paralela. Quarto do meu filho? Impecável. Sala? Um brinco. Escritório? Organizado. E meu quarto... meu quarto parecia cenário de documentário sobre mulheres que foram engolidas pela vida. Sem espelho, sem vaidade, com roupas lindas escondidas em baús porque não cabem mais em mim.

Ele olhou tudo aquilo, meio chocado, meio comovido, e disse:

Você é uma menina tentando sair do fundo do poço.

Mas disse com ternura. E, olha, ele tava certo. O fundo do poço existe, e o meu é uma espécie de anti-oásis em um apartamento grande, com boa iluminação e localização estratégica. Nada mal.

E então a frase do pivete volta: carnuda com cara de safada. Agora ela soa quase como um slogan. Uma provocação existencial. Uma definição que mistura o que os outros veem e o que eu ainda não consigo enxergar com clareza.

Talvez eu ainda não goste de ser gorda de novo. Talvez eu ainda não saiba direito como ocupar esse corpo que mudou sem ser com trabalho e fraldas de bebê. Mas tô tentando. Tô abrindo os baús aos poucos. Colocando espelho na parede. Passando um batom aqui, outro ali. Voltando pro jogo, mesmo que com a cara fechada e um histórico de guerra.

E se é pra estar no fundo do poço, que seja com um certo estilo. E se é pra ser carnuda com cara de safada, que seja com uma boa dose de ironia e dignidade.

Porque, sinceramente, já vi lugares bem piores pra se estar e quase não consigo sair de lá.

 
 
 

1 comentário


Maria Helena
25 de mar.

Adorei! Seja mais gentil com você. Você é linda e mais do que isso: escreve muito bem.

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