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Eu conheço meu lugar, Bolsonaro. Tu conhece o teu?

Tire esse cadáver político daqui e dobre sua língua podre antes de falar do Nordeste


 

Após a operação da Polícia Federal que desmantelou as articulações golpistas de Bolsonaro e seus aliados, o ex-presidente se vê cada vez mais isolado, sem o aparato de poder que outrora utilizava para atacar instituições e perpetuar narrativas de ódio. Essa queda evidencia um ponto central: Bolsonaro nunca compreendeu o Brasil em sua diversidade, usando o poder para alimentar divisões regionais e ideológicas.

No Nordeste, onde seu desprezo encontrou maior resistência, o povo assistiu a essa derrocada com a certeza de que sua rejeição nas urnas foi um dos primeiros e mais importantes golpes contra seu projeto autoritário.

Bolsonaro não se escondeu em alguma embaixada, já que a opção de fugir covardemente do país era impossível, pois teve o passaporte apreendido pela Polícia Federal em fevereiro deste ano, após a operação Tempus Veritatis, que investiga tentativas de golpe de Estado depois das eleições. Em vez disso, refugiou-se em Alagoas, transitando entre Maceió e São Miguel dos Milagres, onde seu ex-ministro do Turismo, Gilson Machado, dono de uma pousada na região, lhe ofereceu abrigo.

Na madrugada, Bolsonaro postou um vídeo em que chorava enquanto o ex-ministro tocava terrivelmente a sanfona e cantava desafinado. O ex-presidente usou o momento para afirmar: "Alguns falam que o meu defeito foi jogar limpo num país onde tinha muita coisa escondida, mas valeu a pena. Se eu for embora hoje, valeu a pena."

Por um instante, enquanto assistia à cena, cheguei a pensar em anistia. Mas passou. Entre uma desafinação e outra, Gilson ainda aproveitou para destacar sua proximidade com Donald Trump — ressuscitando o meme das eleições de Recife — buscando fortalecer a narrativa de alinhamento internacional que Bolsonaro e seus aliados sempre exploraram.

A performance melancólica, entretanto, não desvia o foco do cerco cada vez mais apertado. Indiciado pela Polícia Federal por crimes como abolição do Estado democrático de direito, golpe de Estado e organização criminosa, Bolsonaro parece agora contar apenas com gestos simbólicos e discursos emocionais para manter sua base de apoiadores mobilizada.

Naquela mesma madrugada de sofrência e desafinação, Bolsonaro lançou ao exército digital que o cerca a notícia de que a Operação Carro-Pipa, responsável por abastecer com água potável 1,25 milhão de pessoas em 344 municípios do semiárido nordestino, foi suspensa em 25 de novembro devido à falta de recursos federais para pagar os pipeiros.

A paralisação afetou estados como Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Bahia. É claro, com o racismo permeando cada passo, a notícia serviria para forçar alguma aproximação entre Bolsonaro e o Nordeste. No dia seguinte, após repercussão negativa, o Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional anunciou a liberação de R$ 38 milhões para o Exército, permitindo a retomada do serviço. A ação, essencial para mitigar os efeitos da seca, foi restabelecida em 27 de novembro, garantindo novamente o fornecimento de água às comunidades vulneráveis.

A caricatura do Nordeste como uma região dependente de carros-pipa, resignada a viver sob a sombra das desigualdades estruturais, muitas vezes ignora a riqueza cultural, a força coletiva e a consciência de classe de seu povo. Essa visão reduzida tenta perpetuar estereótipos que desumanizam e silenciam a complexidade da região, sugerindo que a sobrevivência anula a capacidade de resistência e protagonismo.

Bolsonaro odeia o Nordeste porque ele é o símbolo vivo da resistência a seu projeto autoritário. E, paradoxalmente, escolheu a região como refúgio porque sabe que é nela que encontrará uma resposta moral, mesmo que negativa, à sua trajetória.

O Nordeste rejeitou Bolsonaro nas urnas, mas é nele que o ex-presidente agora tenta construir uma narrativa redentora. Ele ignora que a resistência nordestina não é apenas política; ela é cultural, histórica e profundamente enraizada em sua identidade.

Essa resistência transcende partidos e ideologias. Não se limita a Lula ou ao PT, mas está presente na capacidade do Nordeste de articular políticas públicas regionais, como demonstrado pelo Consórcio Nordeste durante a pandemia. Está nos jovens que lideram o Enem e ocupam universidades de elite, nas comunidades que limpam o petróleo de suas praias "no braço" e nos pescadores que sobrevivem às adversidades com solidariedade e coragem.

Bolsonaro tentou dividir o Brasil, mas uniu o Nordeste em uma rejeição quase unânime ao seu projeto de poder. Ele não compreendeu que a força dessa região está em sua história de resistência, não em sua suposta dependência. O Nordeste existe — e resiste. Sua rejeição a Bolsonaro é mais do que política; é um grito de dignidade.

Quando Belchior cantou "Conheço o Meu Lugar", ele descreveu essa resistência inquebrantável. Saber o lugar que ocupamos no mundo não é submissão, mas afirmação de nossa identidade. Bolsonaro, ao escolher o Nordeste para velar sua carreira política, tenta se apropriar de uma força que nunca compreendeu. Mas o Nordeste conhece seu lugar e, com isso, redefine o lugar de quem insiste em desprezá-lo.




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