Kafka jamais seria triste se fosse nordestino: masculinidades, paternidade e linguagem — da sanfona ao silêncio
- Sara Goes
- 27 de mar.
- 6 min de leitura
Kafka escreveu o silêncio. Gonzagão tocou a saudade. Entre cartas não lidas e sanfonas abertas, uma reflexão sobre pais, filhos e o que cala ou canta os homens

Poucas canções na história da música popular brasileira carregam tanto sentido num só título como Respeita Januário. Lançada originalmente em 1950, com letra de Humberto Teixeira a partir de uma história real contada por Luiz Gonzaga, a música é mais que um sucesso — é um rito, um reencontro, uma afirmação pública de raízes. Ao longo das décadas, Gonzagão não apenas a regravou diversas vezes, como também a reencenou em shows, programas de rádio e televisão, com introduções faladas que mudavam conforme o tempo, o público e talvez o próprio estado de espírito do velho sanfoneiro. Cada versão conta um aspecto diferente de sua relação com o pai, Januário, e ao fazê-lo, revela também os códigos de afeto, dureza e respeito que costuram a vivência masculina no sertão nordestino.
O que faz de Respeita Januário uma joia rara na discografia de Gonzaga é justamente o fato de ser uma das poucas composições que dialogam diretamente com sua vida pessoal. Luiz não era um compositor autobiográfico. Como bem observam seus biógrafos e estudiosos, ele foi antes um intérprete genial do Brasil real, traduzindo em baião os ritmos, os falares, os sofreres e os encantos do Nordeste. A canção, no entanto, rompe essa regra. Foi baseada numa lembrança do próprio Luiz, narrada a Humberto Teixeira: após anos longe de casa, já artista consagrado no Rio de Janeiro, Gonzaga retornou ao sertão. Seu jeito, sua sanfona prateada de 120 baixos, sua fama nacional, tudo destoava da memória que os conterrâneos guardavam do menino fujão. Um caboclo, Jacó, ao pé do palco, soltou a sentença: “Luiz, respeita Januário!”.
A frase virou verso:“Luiz, tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso, e com ele ninguém vai, Luiz... Respeita os oito baixos do teu pai.”Era mais que um conselho — era a retomada da ordem simbólica. No sertão, fama não suplanta tradição. A sanfona moderna, urbana, elétrica, não eclipsa a autoridade da de oito baixos, tocada por quem, como Januário, era chamado pra toda festa, casório e batizado. O filho que se tornara rei ainda era, ali, o menino do Exu.
Em 1979, no álbum Eu e Meu Pai, Luiz Gonzaga reconta esse retorno de forma comovente e pausada. A introdução falada é quase um monólogo teatral, que começa com a frase enigmática: “Esse negócio de matar gente... trabalho, menos pra eu. Me lasquei.” Narra sua fuga por causa de um namoro malvisto, a surra dos pais, o alistamento, os anos no Exército e, por fim, a volta ao lar. Chega de madrugada, observa a casa às escuras, sente o cheiro da terra e é recebido com desconfiança e brutal carinho: “Quem é?” — “Sou Luiz Gonzaga, seu filho.” — “É hora de você chegar em casa, seu corpo!”. Naquela noite, ninguém dorme. No dia seguinte, a casa cheia pede música. Ele abre a sanfona e toca. Mas antes que se ache grande demais, ouve de um dos seus: “Você é famoso, mas seu pai é uma barca.”
Já em 1983, numa apresentação para a TVE, a história é contada com mais humor, teatralidade e leveza. Gonzaga incorpora vozes, imita a mãe zangada, o pai quieto, os sertanejos faladores. Detalha como comprava a própria sanfoninha, entregava o dinheiro à mãe, sonhava em casar, e acabou fugindo por medo da violência do pai da moça. Narra a surra da mãe — “Essa família nunca deu assassino, seu cachorro!” — e a dureza que o empurrou para o mundo. Foi soldado, tocou em bar, chegou ao Rio. Quando voltou ao sertão, queria saber se ainda seria reconhecido. De novo, o reencontro: a casa, o candeeiro, a voz do pai: “Poxa, isso é hora de você chegar em casa, seu corno!” — e a frase final, repetida com riso e respeito: “Luiz, respeita Januário.”
Essa repetição das versões, suas variações e inflexões, constroem um imaginário sobre o que é ser homem no sertão: o aprendizado duro, a obediência forçada, a culpa, o afeto sem toque, mas com presença. Januário é o pai severo e sábio. Luiz, o filho inquieto que volta com fama e quer provar valor, mas sabe que deve abaixar a cabeça diante da autoridade que o formou. Respeitar Januário é respeitar a origem, o ofício, a raiz e o afeto sem palavras que se comunica pelo cheiro, pelo som, pelo gesto.
Luiz Gonzaga fez do Nordeste não apenas uma estética, mas uma ética. Ao recontar sua história com o pai em tantas formas, ele ensinou ao Brasil que a grandeza de um artista se mede também pelo modo como reverencia quem veio antes. Em cada gravação de Respeita Januário, ele não apenas canta — ele presta contas. E nisso, mais uma vez, é imenso.
Vai, chato. Fala, chato.
Pouco mais de três décadas antes da primeira gravação de Respeita Januário, em outro continente, um jovem franzino e angustiado chamado Franz Kafka escrevia uma carta que jamais teria coragem de enviar. Endereçada a seu pai, Hermann Kafka, a Carta ao Pai é um dos documentos mais brutais e comoventes já produzidos sobre a relação entre pai e filho — e, por extensão, sobre a masculinidade e suas dores. Kafka descreve o pai como uma figura esmagadora, autoritária, impiedosa. Escreve para compreender, para tocar o que nunca foi tocado, para ser ouvido por um homem que nunca escutou de fato.
“Aquilo que me impedia de responder — e isso vale desde sempre — era, em primeiro lugar, tu mesmo.” Em frases como essa, Kafka desenha a anatomia do medo. Um medo que não é do castigo físico, mas do olhar, do julgamento, da vergonha de não ser homem o bastante. Naquele pai, Kafka via o peso de um mundo inteiro de cobranças. Tentava ser bom filho, bom profissional, bom judeu, bom cidadão — e falhava. Sempre falhava. Porque não havia espaço para falhar diante de um homem que confundia autoridade com rigidez, e amor com silêncio.
Mas a dor kafkiana não está só em sua história pessoal. Está em tudo que ele revela sobre os vínculos masculinos marcados pela ausência de escuta, pelo autoritarismo emocional, pela vergonha de demonstrar afeto. A carta, com mais de cem páginas, é uma tentativa desesperada de estabelecer diálogo com quem jamais permitiu palavra. Franz escreve porque não consegue falar. E, ironicamente, foi ao escrever que ele deu voz a gerações de homens feridos por dentro.
É aqui que Kafka e Gonzagão se encontram — ainda que em campos opostos da sensibilidade. Gonzaga também teve medo do pai. Também apanhou. Também fugiu. Mas pôde voltar. E quando voltou, mesmo zombado, mesmo testado, foi acolhido. A dureza do pai nordestino vinha com sanfona, com rede, com cheiro de candeeiro. Não havia carta. Havia riso, raiva, gesto e, sobretudo, música.
Se Kafka tivesse nascido no sertão, talvez não precisasse escrever uma carta que jamais seria lida. Talvez tivesse voltado com a sanfona debaixo do braço. E ao chegar de madrugada, à luz fraca do candeeiro, ouvisse da boca do pai — com voz de raiva travestida de amor — algo como: “Isso é hora de você chegar em casa, seu corno?” E então, quem sabe, ninguém mais dormisse naquela noite.
Se há algo maior do que o Atlântico separando o sertanejo do europeu é o modo como o nordestino atravessa a dor: com riso, ironia e um humor afiado, mesmo diante das maiores durezas da vida. Luiz Gonzaga sabia disso como poucos. As introduções de suas músicas — mesmo quando falam de fuga, surra, fome ou rejeição — quase sempre arrancam risos. No sertão, a vida é dura, mas o espírito é moleque. A sabedoria popular se constrói na arte de rir do trágico, zombar do destino, tirar onda da própria história. Onde Kafka calava e adoecia, Gonzagão gracejava e tocava — porque no Nordeste, rir também é resistir.
O silêncio entre Gonzagas
Se Luiz Gonzaga foi o sanfoneiro que traduziu o Nordeste em música, seu filho Gonzaguinha foi o letrista que cantou as dores modernas do Sudeste. Entre eles, não apenas uma diferença de estilo, mas de mundo — e, por muito tempo, uma barreira afetiva. Luiz era o pai ausente, o mito nordestino, o homem que partiu. Gonzaguinha, o filho criado pela mãe de criação no Rio de Janeiro, órfão de presença, ressentido de afeto. Durante anos, a relação entre eles foi atravessada por mágoas e distâncias. E, como Kafka com Hermann, Gonzaguinha também precisou transformar o silêncio em palavra, e a raiva em arte.
Enquanto Kafka escreveu uma carta jamais enviada, Gonzaguinha cantou sua ferida em versos diretos e doloridos. Ambos tentaram entender o pai como quem tenta decifrar um enigma antigo. Mas, ao contrário do escritor tcheco, o filho de Gonzagão conseguiu o reencontro — e, com ele, o perdão. Em 1981, no show Vida de Viajante, pai e filho subiram juntos ao palco. Foi o gesto que Kafka talvez tivesse desejado. Um abraço que custou uma vida inteira.
Talvez porque fosse sudestino, Gonzaguinha herdou o estilo duro das rupturas silenciosas, da crítica afiada, da urbanidade sem rede nem candeeiro. Mas, ao final, foi também Gonzaga quem acolheu. Com sanfona, como sempre. E Gonzaguinha, diferente de Kafka, pôde ouvir — e responder — em voz alta.
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