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Lembranças do carnaval cearense

Mela-mela no paracururu Crédito: Aurélio Alves/ O POVO
Mela-mela no paracururu Crédito: Aurélio Alves/ O POVO

Há tantos anos vivendo na Floresta Negra alemã, ainda acho o Carnaval daqui bem peculiar, com máscaras assustadoras e o frio de rachar. É nessa época de carnaval e nas festas juninas que as saudades do meu Ceará vêi de guerra aumenta. Fico na lembrança do meu Ceará, onde carnaval de verdade não tem trio elétrico, nem sambódromo, nem aquele frevo tão bonito do Recife. Recordo de ver os vitoriosos do maracatu da Domingos Olímpio pelo jornal no meio-dia. Aquelas cortes tão bem adornadas com búzios, plumas coloridas, índios e calungas, com seus reis e rainhas de cara pintada de preto. Nomes tão conhecidos como Az de Ouro, Nação Baobab, Nação Iracema, Nação Fortaleza, Rei de Paus, Rei Zumbi e Vozes da África. Se esqueci alguns nomes, perdão.  No entanto, não me venha com identitarismos que o Ceará não é terra de Black Face, o Ceará é terra de Chico da Matilde, nosso Dragão do Mar. Maracatu é resistência, é sincretismo cultural e religioso. É celebração da ancestralidade do povo negro.  É patrimônio imaterial de Fortaleza e deveria ser muito mais valorizado.

Maracatu em Fortaleza. Foto: Davi Pinheiro e Tiago Stille/Site Governo do Estado do Ceará
Maracatu em Fortaleza. Foto: Davi Pinheiro e Tiago Stille/Site Governo do Estado do Ceará

Mas o que sinto falta mesmo é do mela-mela. Essa farra das ruas, das praças e das praias. Quem nunca foi pelo menos uma vez em Aracati, Beberibe ou Paracuru que jogue a primeira pedra. Gosto de infância, do tempo que eu não tinha preocupação e até tinha que era não reprovar de ano. Recordo com nostalgia de um carnaval que passei em Pentecostes, terra de meu pai. Eu eu, minha irmã e minhas primas saímos a noite. Somos sobreviventes dos anos 90, então aparentemente não era problema para nossos pais deixarem a gente sair sozinhas. Nós estávamos muito animadas e, ir à praça, cada uma munida com seu pacote de Maizena. No meio do caminho um crente (naquele tempo se chamava assim mesmo) que ia para o culto foi a primeira vítima. Minha prima animada sujou o terno marrom São Francisco dele, a carreira e a risada correu frouxa, pois o irmão perdeu a compostura e soltou os cachorros na gente. Cada palavrão mais horrível que o outro, por sorte ele foi se arrempender dos seus pecados em algum templo da cidade e nós nos jogarmos na festa pagã. A praça do CSU estava cheia e a criançada fazendo a festa. Em alguma caixa de som tocava o Melô do Tchaco de Tonho Matéria. Há anos tento descobrir que feijão tao gostoso é esse que dá 15 dias dor  na barriga. Quero passar longe.

 

“ Mostra sua cara seu jogo de cintura

Que menina é essa, é da turma da usura

Tchaco, eu tô em cima eu tô em baixo!

Tchaco, eu tô em cima eu tô em baixo!

 Ê mamãe”


Eu na minha audácia que me era peculiar no auge dos meus dez anos fui desafiada. O objetivo era atacar um grupo meninos. Topei na hora e fui cumprir minha missão. Voou amido de milho para todo lado, mas consegui acertar os alvos. Eu só não contava que aqueles meninos estavam acompanhados por uns adolescentes bem maiores que eu. As covardes que estavam comigo me abandonaram em combate e fui cercada pelo inimigo. Foi um bombardeio. Era fumaça branca para todo lado e uma gritaria. Pense numa vaia daquelas bem sonora. Ieeeiiii. Quando eles acabaram o massacre não havia nada em mim que não estivesse branco. Nem o branco olho escapava. E maizena no olho arde. Lembro até da ardência. Mas não chorei perante a humilhação pública. Minha única preocupação era não levar um carão depois de tudo que passei. Voltamos para a casa da minha avó, não lembro mais quantos quarteirões, não tinha ninguém em casa e eu continuava suja. A única alternativa era tentar corrigir o estrago com a água da torneira do jardim. As minhas comparsas também não ficaram imunes ao mela-mela, mas pelo menos o estado era menos crítico que o meu. Fizemos o que foi possível para limpar aquele grude todo. Agora não tínhamos ideia onde estavam os adultos, tiramos o reisado info na casa de parentes e conhecidos até encontrar eles perto da Igreja Matriz. Carão não teve, afinal era carnaval. E estávamos prontas para recomeçar nossa nova batalha. Era uma guerra sem vencedores, porque no final todos saíam igualmente imundos e felizes. Bastava estar na rua e aceitar o inevitável – cedo ou tarde, alguém ia te pegar.

Carnaval (1834) de Jean-Baptiste Debret
Carnaval (1834) de Jean-Baptiste Debret

Foi depois de adulta que parei para pensar nessa peculiaridade do nosso carnaval. Por que no Ceará essa farra irreverente sobreviveu com tanta força? Enquanto outros estados foram transformando o carnaval em algo mais organizado, mais “limpo”, por que lá o mela-mela resistiu? A resposta talvez esteja na colonização do Nordeste e no entrudo português. Antes do carnaval como conhecemos hoje, existia essa festa meio caótica trazida pelos portugueses, onde as pessoas jogavam água, farinha e até frutas podres umas nas outras. No século XIX, as autoridades acharam aquilo um exagero, disseram que era agressivo, proibiram a brincadeira no Brasil. Mas será que algo assim desaparece tão fácil?

Claro que não. O entrudo não morreu – ele se disfarçou. Saiu do papel, mas continuou na pele, na risada, na sujeira feliz dos nossos carnavais de rua. Enquanto no Sul e Sudeste o carnaval foi sendo moldado em marchinhas, bloquinhos, desfiles grandiosos e escolas de samba, no Ceará o espírito do entrudo permaneceu. A diferença é que, em vez de água suja, adotamos a espuma (para os mais modernos), a maisena e o que mais pudesse sujar com alegria. É como se, teimosamente, tivéssemos dito: “Podem proibir no papel, mas na rua a gente segue brincando.” Porque, na terra do Bode Ioiô, nunca seguimos regras muito à risca. Se proibiram o entrudo, o Ceará deu um jeito de continuar a festa, só que do nosso jeito.

E assim se foi. O maracatu, que já foi mais forte em Fortaleza, hoje tem um tom de nostalgia. Os blocos cresceram, os trios tomaram espaço, e aquele carnaval de rua, espontâneo e sem roteiro, parece que ficou na infância de quem viveu. E quem resiste firme e forte até hoje é o mela-mela gaiato do cearense.


 
 
 

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