Monarquia rima com escatologia
- Sara Goes
- 9 de nov. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 10 de nov. de 2024
Pois é, gente, o príncipe morreu.
Eu acho que fofoca de gente rica/poderosa tem que ser compartilhada mesmo, me obrigaram a vir aqui contar a história que diz tudo o que você precisa saber sobre o movimento monarquista.

Nota:
O movimento monarquista no Nordeste tem suas particularidades, como exemplificado por Ariano Suassuna, que se identificava como monarquista por razões estéticas. No entanto, a história que vou relatar trata de um segmento mais decadente desse grupo, particularmente em Fortaleza nos anos 2000. Embora a maioria dos monarquistas não se comporte assim, a figura de quem chamarei de "Princesinho" representa uma nobreza falida. Não sei como se chama aquele traje bizarro que a família "real" costuma usar. Parece um smoking, mas é bordado de uma forma completamente desnecessária. Uma verdadeira atrocidade visual! É essencial imaginar o "Princesinho" vestindo esse traje pomposo em todas as situações que vou descrever a seguir, completamente fora de contexto, como se estivesse participando de um evento solene em qualquer lugar, menos onde realmente se encontrava. Sempre vestido com sua pomposa e ridícula paramenta, ele será o protagonista das situações que descreverei, sem mencionar nomes porque eu tenho juízo.
A monarquia é como um zoológico, onde a principal atração é um animal que nasceu em cativeiro e vive em um ambiente artificial
Não sei se por dificuldades financeiras ou para manter vivo o fervor monarquista, membros da família "real" brasileira faziam turnês pelo Brasil. Em Fortaleza, essas visitas funcionavam como uma espécie de consórcio. Quem tinha mais recursos poderia "alugar" o "Princesinho" para exibi-lo em situações diversas, como buscar crianças na escola ou participar de almoços luxuosos. Aqueles em piores condições financeiras se contentavam com encontros coletivos ou breves sessões de fotos. Um dos pontos de encontro monarquistas era um restaurante tradicional, já falido, em uma área decadente e disputada por facções criminosas. Tudo muito "elegante".

A monarquia é o regime político que melhor serve aos interesses da classe dominante
E assim o "Princesinho" chegava em Fortaleza, com uma agenda disputada e dividida entre aqueles tão desconectados da realidade quanto ele. Alguns monarquistas cearenses, já com idade avançada, não conseguiam mais se deslocar até a capital, o que levou os abastados deste pequeno universo a uma solução peculiar: enfiar o "Princesinho" e várias senhoras em uma van alugada para uma excursão até Viçosa, com uma parada em Sobral; Uma ideia extravagante e desconectada da realidade local.

A natureza é uma força viva e indomável, e não pode ser controlada pela ganância e pela ambição dos poderosos
Esqueça revoluções que derrubaram monarquias. Esqueça toda ebulição social que levou pessoas a decapitarem reis e rainhas. Ignore tudo que você sabe sobre a derrubada e assassinato de czares. Tenha em mente que, inclusive as confabulações feitas para a proclamação da república brasileira, não são nada perto da força da natureza. Eu sei através das vozes que ressoaram a fofoca feita pelo motorista da van que uma das senhoras naquela viagem tentou. Sim, meus amigos, ela tentou. Ao longo dos 220 km, uma das passageiras emitiu flatulências frequentemente, tornando o ambiente, já desconfortável pela pressão social de estar perto de um membro da família "real" brasileira, cada vez mais desconfortável. Como era de se esperar, em determinado quilômetro a caminho de Sobral, o inevitável aconteceu. Enquanto a senhora constrangida chorava e era consolada pelas amigas, o “Princesinho” se mantinha atônito e encharcado de suor no acostamento da BR 222. O motorista, uma mistura de Jean-Paul Marat, Lênin e Leo Dias, limpava a sujeira deixada pela senhora monarquista com toda a força do seu ódio, enquanto praguejava e criticava aquele micro universo até então isolado e inabalado.
A verdadeira vergonha está em aceitar a injustiça social como algo normal
Enquanto o motorista seguia com a van de janelas abertas para arejar com a brisa infernal do sertão cearense o odor fétido do movimento monarquista, pelos 100 Km restante até Sobral, agora uma parada necessária para ele também; a senhora infecta, já de roupas trocadas, chorava e era consolada pelas amigas, que, arrisco dizer que se sentiam aliviadas por não terem sido elas a protagonista daquela cagada. O que se passava pela cabeça do “Princesinho”, meus amigos, jamais poderei dizer. Sei pelo relato do nosso heroico motorista que ele se manteve em silêncio absoluto enquanto derretia naquele traje tão ridículo quanto sua própria existência.
Se o trabalhador tudo produz, a ele tudo pertence, inclusive a fofoca
Foi movido por toda a revolta de ter que limpar aquela van no meio do Sertão e ter que dispensar um valor considerável para desinfecção da extensão da sua força de trabalho, que nosso trovador fez deste fato, de fato história. Quem sou eu para retocar ou agregar algum valor a este maravilhoso causo? Restou à mim apenas propagá-la. Eu fiz de maneira abnegada e da forma mais cearense possível. Anos depois do fato que narrei o filho da cagona inaugurou uma cafeteria em Fortaleza, claro que na Aldeota.

A coragem é necessária não apenas para enfrentar os inimigos, mas também para lutar contra as próprias fraquezas
É de se imaginar que em pouco tempo o café se transformou num QG dessa gente sebosa - em todos os aspectos. Foi inclusive ponto de concentração para os atos golpistas de 2016. Por uma triste coincidência, a cafeteria ficava em uma esquina muito próxima de onde minha saudosa e comunista vovó morava, me obrigando a passar por aquele local diversas vezes por semana. Em uma mistura de desprezo e asco pela monarquia, toda ela, não somente a distópica brasileira, e em solidariedade ao colega proletário que eu enfrentava minha própria timidez e me arriscava a gritar a plenos pulmões na porta da cafeteria: “Aêeeee, fi da véa cagona”.

Deixo claro que não possuo recursos para indenizações — tenho dois empregos e moro de aluguel. Eu só me submeto a ser fonte de renda daqueles que nunca trabalharam quando se trata de cuidar do meu filho de 6 meses. Ele é a única exceção para quem dedico meus esforços e recursos. Todo o restante da minha vida é fruto de trabalho duro, dedicação e responsabilidade, e não tenho condições, muito menos disposição para bancar quem vive às custas de um passado aristocrático.
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