Panair do Brasil e as memórias do meu avô: A ilha do amor
- Sara Goes
- 1 de dez. de 2024
- 6 min de leitura
Durante toda a minha vida, eu só vi uma única foto do meu avô*. Cresci achando que essa ausência de imagens era reflexo de uma mágoa familiar, uma memória silenciada por desavenças e ressentimentos. Eu só ouvia que ele era um stalinista cruel, quase um personagem de ficção, onde até o limite da fantasia e do preconceito se justificava. Vovô Mário, afinal, nasceu no início do século XX (1909), um período marcado por tradições rígidas, e se viu confrontado pelas profundas mudanças das décadas de 1960 e 1970. Essas mudanças, representadas pelas leituras leninistas e trotskistas de alguns dos meus tios, criaram um abismo ideológico dentro da própria família. Falando em Trotksy... quem pode julgá-lo? Ele era, como muitos de sua época, uma figura moldada pelas contradições de um mundo em constante transformação. Com o tempo, descobri que esse vazio de imagens e memórias tinha uma origem muito mais complexa. Não era apenas uma questão de ressentimento familiar. É curioso como as histórias de alguém podem ser distorcidas por fatores tão maiores do que ela mesma. No caso do meu avô, a memória dele foi apagada, como se sua existência tivesse sido empurrada para as sombras.

Como já contei aqui, meu tio Wilson e meu primo Alexandre estão percorrendo o litoral do Ceará em busca das nossas raízes, tentando recuperar pedaços dessa história antes que a ditadura a marcasse. E é nesse contexto que quero contar como meu avô e minha avó se conheceram. Uma história de amor que, mesmo entre os filtros e silêncios que marcaram nossas memórias familiares, conseguiu atravessar o tempo e chegar até mim.
Meu avô, Mário Albuquerque, era o responsável pela folha de pagamento dos funcionários da Panair na região Nordeste e também na região Norte, abrangendo aquela faixa equatorial que une os litorais. Na função conhecida como caixa pagador, ele percorria diversas cidades para garantir que os trabalhadores recebessem seus salários em mãos. Mas de forma clandestina desempenhava um papel crucial na organização sindical, reunindo os trabalhadores após os pagamentos para falar sobre direitos trabalhistas e organização social. Era um comunista muito orgulhoso, alguém que não perdia a oportunidade de incentivar a luta coletiva.
Contudo, o contexto sindical da época era extremamente repressivo. Desde o início dos anos 1930, com a promulgação da Lei de Sindicalização, sindicatos autônomos enfrentaram perseguições constantes, incluindo o fechamento de associações, prisões de líderes e intimidações frequentes. Sob a justificativa de manter a ordem e combater ideologias consideradas subversivas, como o comunismo e o anarquismo, o governo passou a intervir diretamente nos sindicatos, exigindo o controle das finanças, proibindo atividades políticas internas e marginalizando lideranças que buscassem autonomia.
A repressão aos comunistas foi especialmente brutal, intensificando-se após 1935, com o governo Vargas usando os levantes como pretexto para ampliar as perseguições. Militantes eram detidos, torturados, deportados e frequentemente assassinados. Na clandestinidade, muitos líderes precisavam ocultar suas identidades para evitar o cerco do Estado. Meu avô não foi uma exceção; sua demissão ocorreu como retaliação direta às suas atividades de mobilização sindical. Ele vivia sob constante vigilância, como muitos outros comunistas, em um período em que simplesmente discutir direitos trabalhistas ou criticar o regime podia significar o fim da liberdade ou mesmo da vida.
Na época, meu avô estava no início dos seus 30 anos, enquanto minha avó, Maria de Lourdes, era uma moça de 22 anos, noiva do escrivão da cidade de Camocim, que enfrentava a tuberculose. O estado de saúde dele não impedia que ela participasse das festas da cidade, algo que considerei surpreendente para a época e que me encheu de admiração. Maria de Lourdes era, sem dúvida, uma mulher à frente de seu tempo. Desde que ouvi essa história me pego pensando: se eu tivesse recorrido à minha avó para pedir conselhos sobre minhas desventuras amorosas, será que minha história teria sido tão desastrosa? Vó, me perdoe poie errei. Eu sempre fui fiel... até mesmo à ficante. Segundo as pesquisas do meu tio, vovó frequentava os festejos da região de Camocim, Viçosa, Granja, Chaval e Parnaíba, onde tinha familiares, viajando de trem, carro ou caminhão pau de arara. Diva.
Foi durante uma das viagens de meu avô a Camocim que os caminhos deles se cruzaram. Ele chegou à cidade para realizar os pagamentos dos funcionários da Panair e, como de costume, organizaria uma reunião sindical em seguida. Mas, antes disso, ouviu uma música ao longe. O som o guiou até um galpão, onde, pela janela, viu que se tratava de uma festa animada com orquestra. Entre a movimentação, avistou uma moça bonita e alta, algo raro no Ceará. Era minha avó.
Meu avô não hesitou. Abordou uma pessoa pela janela e pediu que chamasse a atenção da moça para que ele pudesse conversar com ela. Mas minha avó o ignorou. Ele insistiu, abordando outra pessoa e perguntando o nome dela. Descobriu que se chamava Maria de Lourdes, a noiva do escrivão.
Aquela mocinha alta e vistosa era filha do Dr. Raiz, um homem conhecido na cidade por suas múltiplas funções, desde delegado até médico prático, visitando comunidades mais carentes de Chaval com misturas e garrafadas para tratar os mais diversos problemas. Minha bisavó, Dona Noca, também merece ser mencionada. Ela era comunista do Partidão e talvez tenha sido a inspiração para o espírito independente da minha avó. Dona Noca era uma mulher que se recusava a fazer qualquer atividade doméstica e tinha forte envolvimento político, um exemplo atípico para a época.
Voltando ao encontro dos dois: meu avô, naquele momento, sabia apenas o básico — o nome de minha avó e seu compromisso com outro. Isso não o desanimou. Ele fez uma proposta ousada. Abordou uma terceira pessoa e pediu que entregasse um recado para Maria de Lourdes: se ela tivesse interesse em conhecê-lo, que reunisse suas amigas e o encontrasse na Ilha do amor, uma área de praia em Camocim marcada por um grande cipó. Meu avô, por sua vez, estaria lá com outros funcionários da Panair, garantindo que ninguém ficasse sozinho.
Eu achei o fato da minha avó, sendo noiva, estar numa festa muito surpreendente para a época; fiquei mais surpresa ainda quando ela aceitou o convite. E meu queixo caiu quando, finalmente, meu tio me contou o que aconteceu na tal Ilha do amor.
A Ilha do Amor, na verdade, não passava de um pequeno montinho de areia no centro de uma barra, quase uma baía, na praia de Camocim. Cercada pela água corrente do mar, a ilha parecia simples, mas guardava um detalhe que a tornava especial: um cipó que ainda existe e que era uma verdadeira façanha da natureza. Quando tensionado, ele virava uma espécie de mola, permitindo que alguém fizesse a trajetória de um bumerangue. E foi esse mesmo cipó que acabou protagonizando uma das histórias mais marcantes dos meus avós.
Meu avô, sempre ousado, decidiu dobrar a aposta no encontro com minha avó e fez uma proposta inusitada: ficariam próximos um do outro, imóveis, e ele arremessaria o cipó na direção da pequena baía. Se o cipó retornasse até eles, minha avó teria que dar um beijo nele. Minha avó, provavelmente já conhecendo bem os truques daquele cipó, fingiu incredulidade e aceitou o desafio.

O que aconteceu a seguir foi mais do que planejado: ao arremessar o cipó, ele não só retornou, como também acabou se enroscando nos dois. O riso foi inevitável, mas o beijo também. Duas pessoas conspirando para fazerem seu destino unidos na simplicidade daquela ilha. E, segundo meu tio Wilson, que ouviu essa história do próprio Vovô Mário, ao final do beijo, meu avô perguntou com seu jeito direto: E aí, você prefere casar com um escrivão ou com um comunista? Em 1944 eles se casaram.
Vovó se tornou professora enquanto meu avô via sua vida desmantelada e se tornava um "morto-vivo", perseguido incansavelmente até sua morte em 1981. Minha avó enfrentava o desafio de resistir em meio ao caos. A ditadura tentou matar civicamente a família deles, mas não conseguiu. Resistimos e agora contamos a nossa história a partir dos fragmentos que encontramos no caminho que Lourdes e Mario percorreram pelo Ceará.
Há, na verdade, uma passagem na história da minha família sobre meu avô que merece uma narrativa à parte, cercada de observações sobre o ateísmo e a incredulidade que permeiam nossa visão de mundo. Um relato que mistura lendas familiares com as complexidades de sua personalidade e de seu tempo.
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