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Terrorismo político: o Brasil à beira do colapso democrático?

A escalada de violência ideológica e os desafios para proteger a democracia

Fonte: Agência Brasil. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom

 

O Brasil mais uma vez sofreu um atentado terrorista de um militante bolsonarista. Na quarta-feira, 13 de novembro de 2024, as cenas chocantes que circularam nas redes sociais revelaram, mais uma vez, o despreparo das forças de segurança em um dos palcos do ataque de 8 de janeiro de 2023. O fanatismo político segue alimentando ações extremistas, e a pergunta que paira é: quem vai parar esses terroristas? Pessoas que não hesitam em colocar vidas inocentes em risco, movidas por uma ideologia extremista.


Nem todos os envolvidos na depredação de Brasília em janeiro de 2023 foram presos ou condenados, e os mandantes permanecem sem resultados claros, nem mesmo com as provas em vídeo dos patrocinadores estampadas em caminhões dos acampamentos em frente a quartéis por todo o país. Há muito tempo, especialistas alertam sobre os sinais de uma articulação orquestrada, como uma sinfonia macabra. Assim como o caso recente do homem-bomba catarinense, há outros indivíduos cooptados para cumprir comandos. Após o ataque mensagens f de apoio ao ato foram enviadas até da Suíça. Essas pessoas não são insanas: em pleno 2024, elas agem conscientemente, acreditando que matar é justificável em nome de um projeto político de extrema direita.

As cenas de violência já não remetem a filmes de ação estrangeiros ou a países com “tradição” em ataques terroristas. Agora, são uma realidade brasileira. E a pergunta que se impõe é: os brasileiros vão se conformar mais uma vez? Será esse o novo sincretismo nacional, um país dividido entre o apoio a violência e a inércia? Indignação por redes social não resolve um  problema dessa magnitude.


As origens da escalada extremista no Brasil


A violência política que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023 não começou repentinamente. Em dezembro de 2022, por exemplo, três homens inconformados com a vitória de Lula nas eleições tentaram explodir um caminhão-tanque no Aeroporto de Brasília, na véspera de Natal. Unidos pela ideia de um inimigo imaginário — neste caso, o “comunismo” — foi usada para alimentar medo e ódio. Esse conceito funcionou como um dos pretextos para canalizar a frustração e justificar ações violentas.

Os ataques, no entanto, não foram eventos isolados, mas o resultado previsível de quatro anos de um governo que fomentou raiva e descontentamento. Durante sua gestão, Jair Bolsonaro repetidamente usou discursos inflamados para deslegitimar adversários políticos, criticar as instituições democráticas e incitar seus apoiadores contra as instituições federais. Desde 7 de setembro de 2021, por exemplo, o então presidente incentivou abertamente o desrespeito às decisões judiciais e a oposição aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ampliando a polarização no país. 



O fantasma do comunismo ainda ronda o Brasil


O que sempre aparece nesse meio extremista é o tal “fantasma do comunismo”. Na boca dos extremistas, frases repetidas à exaustão chamam a atenção: “pegar as armas para derrubar o comunismo”, e mais recente em troca de mensagens  pelo WhatsApp “comunistas de merda” do STF. O comunismo, enquanto ideologia política, é frequentemente usado como um inimigo imaginário para alimentar o medo e justificar discursos de ódio, mas esse medo não está associado a uma ameaça real ou à atuação de partidos que tem em seu nome comunismo ou socialismo, Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido Socialista Brasileiro (PSB) ou Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que são legais no Brasil e operam dentro da ordem democrática. Na verdade, a maior parte da população sequer conhece o que o comunismo realmente significa, permitindo que a ideia seja facilmente distorcida e manipulada.


Esse imaginário anticomunista foi construído historicamente e amplificado por discursos políticos e religiosos. Durante a Guerra Fria, o comunismo foi apresentado como um inimigo absoluto do Ocidente, associado à perda de liberdades, perseguições religiosas e caos social. Essa visão simplista e descontextualizada foi incorporada rapidamente à cultura brasileira, especialmente durante a Ditadura Militar, e permanece viva como um medo infundado, alimentado pela desinformação.


Líderes religiosos conservadores, em especial, desempenham um papel importante na perpetuação desse imaginário. Ao associar o comunismo à destruição dos valores cristãos e à perseguição religiosa, criam uma narrativa emocional e alarmista que ressoa profundamente em comunidades de fé. Essa retórica transforma disputas políticas em batalhas morais, onde adversários são apresentados como “inimigos da religião”, aumentando a polarização e a intolerância.


Esse medo, baseado mais em suposições do que em fatos, é um terreno fértil para a manipulação. Por isso, políticos e grupos radicais utilizam o anticomunismo como uma ferramenta para desviar o foco de problemas reais e para justificar ações autoritárias e violentas, como os ataques de 8 de janeiro. O comunismo, enquanto conceito, não está presente como um projeto político ou econômico no Brasil contemporâneo, mas seu uso como “inimigo invisível” é eficaz para mobilizar a frustração e direcionar o descontentamento de setores da sociedade.



8 de janeiro de 2023: a destruição em rede nacional


Fonte: Agência Brasil. Foto: Joedson Alves/Agência Brasil

No dia 8 de janeiro de 2023, o Brasil e o mundo assistiram à destruição simultânea de três dos principais símbolos da democracia brasileira: o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o STF. Imagens ao vivo mostraram a invasão e o vandalismo promovidos por grupos inconformados com o resultado das eleições. Dois anos depois, a sensação de impunidade ainda prevalece, com a maioria dos responsáveis e financiadores sem qualquer responsabilização. O Ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, chegou a declarar que os acampamentos em frente aos quartéis eram uma “manifestação democrática”. No entanto, reunir-se pedindo intervenção militar não pode ser considerado democrático, pois viola os fundamentos constitucionais e os valores do Estado de Direito.


Do ponto de vista jurídico, os ataques são inconstitucionais e configuram crimes contra o Estado Democrático de Direito. A Constituição garante a soberania popular e a separação dos poderes, princípios que tais manifestações atacaram diretamente. A Lei nº 14.197/2021 também criminaliza ações que visem abolir a ordem constitucional ou incitem as Forças Armadas contra os poderes constituídos. Decisões do STF reafirmaram que a liberdade de expressão não ampara atos antidemocráticos, como pedidos de intervenção militar.


Politicamente, essas ações representam uma negação da legitimidade do processo eleitoral e um ataque à democracia brasileira. Ao buscar desestabilizar instituições, os manifestantes enfraqueceram a confiança pública no sistema político e abriram precedentes perigosos para futuras crises institucionais. Sob o ponto de vista ético e social, defender uma intervenção militar contradiz os valores democráticos e ignora o histórico de violações de direitos humanos durante a ditadura no Brasil. Esses atos incentivaram a polarização e colocaram em risco a estabilidade social, culminando em violência e desordem, como evidenciado nos ataques de 8 de janeiro.



A ameaça atual: quando será tarde demais?


A questão do terrorismo tornou-se central no debate nacional. Os ataques recentes revelam uma escalada de violência com motivação ideológica e o objetivo claro de desestabilizar o governo. Em dezembro de 2022, Brasília foi salva pela ação de um motorista de caminhão e pela falha de um detonador. Agora, em novembro de 2024, mais um plano falhou, resultando apenas na morte do próprio extremista solitário. Mas até quando os brasileiros poderão contar com essa sorte? E quando um ataque tiver sucesso, quem será responsabilizado?


Essas perguntas permanecem sem resposta, mas uma coisa é certa:  não podemos mais ignorar a gravidade do momento. Eles são motivados por um ódio que já ultrapassou todos os limites. Como o próprio irmão do Tiü França disse em entrevista à TV Brasil, “a pessoa com a cabeça fraca, se não está bem centrada, acaba se deixando levar pelo ódio“. A sociedade brasileira precisa levantar de seu “berço esplêndido” e enfrentar o desafio de impedir que esses atos terroristas se tornem parte permanente da história do país. 


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